Homem que capturou Anne Frank só cumpria ordens

O que fizeram e como foram tratados muitos oficiais nazistas, depois da Segunda Guerra Mundial? Raul Hilberg (1926-2007) autor de A Destruição dos Judeus Europeus, estudo de mais de 1.000 páginas, e de um ensaio intitulado Perpetrators Victims Bystanders (perpetradores, vítimas, espectadores), mostra que alguns foram até protegidos por serviços secretos. Cineasta cobriu o processo de Nuremberg e se tornou grande estudioso da Shoah.

Retrata inclusive personagens menos conhecidos, até outros como Klaus Barbie (1913-1991), conhecido como o Carniceiro de Lyon, o chefe da Gestapo que perseguiu a resistência francesa e os judeus no nordeste da França. Torturou pessoalmente muitas de suas vítimas. No final da guerra, foi recrutado pelos serviços secretos norte-americano, que consideravam que suas informações sobre as redes comunistas eram extraordinariamente úteis no início da guerra fria. Viveu na Argentina e depois trabalhou para a ditadura boliviana, antes de ser finalmente extraditado para a França em 1983, onde foi julgado e condenado à prisão perpétua, onde morreu de câncer em 1991.

Para ajudar Barbie a escapar, os serviços secretos utilizaram as famosas rotas dos ratos, as redes organizadas que ajudaram os nazistas a fugirem para a Espanha franquista e a América Latina. Uma das conexões dessas redes em Viena era um antigo oficial alemão que chegaria a ser um personagem muito importante no pós-guerra, o austríaco Kurt Waldheim (1918-2007), outro caso paradigmático da amnésia no final da II Guerra Mundial. Waldheim foi secretário-geral das Nações Unidas (1972-1981) e presidente da Áustria (1986-1992). Entretanto, seu passado como oficial da inteligência da Wehrmart nos Bálcãs o alcançou nos anos oitenta, quando foi acusado de, pelo menos, ter conhecido crimes de guerra durante a II Guerra Mundial.

Serviu em Salônica quando todos os seus habitantes judeus foram deportados para Auschwitz — cerca de 50.000 sefaraditas, um terço da população.

E o ocorrido com Karl Siberbauer (1991-1972), o homem que prendeu a vítima mais famosa da Shoah, Anne Frank, a menina que se transformou em um símbolo da morte de seis milhões de judeus durante o Holocausto?

Siberbauer, oficial da Gestapo na Holanda, recebeu a ordem de ir até a Rua Prinsengracht 263 porque havia ali judeus escondidos, embora sempre tivesse dito que desconhecia quem fez a denúncia, já que ele não recebeu pessoalmente o telefonema, mas seu superior, Julius Dettman, que se suicidou depois da guerra. De fato, nunca se soube quem foi o delator da família Frank. O caçador de nazistas Simon Wiesenthal localizou Siberbauer em 1963: trabalhava como policial em Viena. Foi afastado de suas funções durante a investigação, apesar de em 1964 ter sido declarado inocente porque se limitou “a cumprir ordens” durante a prisão. Voltou a seu trabalho e faleceu em 1972. Uma investigação de 2011 da revista alemã Focus revelou o que estivera fazendo durante os anos em que sumiu do mapa: trabalhou para os serviços secretos da República Federal da Alemanha.

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