Rabino Schlesinger avalia os 50 anos de diálogo católico-judaico

À luz do encontro com o Papa Francisco, Michel Schlesinger, rabino da CIP e representante da Conib para o diálogo inter-religioso, avalia os 50 anos de diálogo católico-judaico.

PapaEncontro2015

Leia abaixo seu depoimento:

“Tradicionalmente, os textos judaicos são estudados em duplas. Duas pessoas leem juntas a mesma passagem e a debatem. Os debates podem ser acalorados, com espaço para acordo e desacordo, reflexão e interpretação. A fonte em discussão é o instrumento, o ponto de partida, para que o diálogo aconteça. Este sistema recebe o nome aramaico de chavrutá que tem a mesma raiz da palavra hebraica chaver, amigo.

Desde a conclusão do Concílio Vaticano Segundo, em 1965, e a publicação da Nostra Aetate, começaram a se desenvolver iniciativas de diálogo católico-judaico em diversas partes do mundo. O documento conciliar foi um chamamento para que membros dessas duas comunidades religiosas se engajassem em uma aproximação baseada no mútuo reconhecimento e respeito. No Brasil, foram criados o Conselho de Fraternidade Cristão Judaico e a Comissão Nacional de Diálogo Religioso Católico Judaico da CNBB.

Passado meio século do início dessas iniciativas, é chegado o momento de uma avaliação corajosa daquilo que foi conquistado e, principalmente, do que ainda falta atingir. Sinto que o Jubileu de Ouro do diálogo construiu a confiança necessária para o enfrentamento de questões complexas.

O encontro em Roma enfatizou as conquistas deste meio século de diálogo em oposição aos 20 séculos de desconfiança e perseguição. O congresso analisou como a Shoá e a polêmica em torno da posição da Igreja durante a Segunda Guerra Mundial criaram as bases para a produção deste documento. Foi discutida a influência de muitos anos de antissemitismo cristão na adesão dos cidadãos europeus à ideologia racial nazifascista. Textos cristãos polêmicos, como a oração da Sexta-Feira Santa, que pede que judeus aceitem Jesus, assim como textos judaicos que se referem aos gentios de maneira pejorativa, foram debatidos. O papel das religiões no conflito entre palestinos e israelenses foi abordado, assim como o fanatismo islâmico e suas origens.

Na audiência privada com o papa Francisco, o líder católico reafirmou seu compromisso com o diálogo e o combate a toda forma de discriminação. A Nostra Aetate, segundo o papa, representa ‘um sim definitivo às raízes judaicas do cristianismo e um não irrevogável ao antissemitismo’. Veja vídeo da audiência (em italiano).

Desde muito jovem, me envolvi com o diálogo inter-religioso. Meu avô, Hugo Schlesinger Z’l, foi um dos judeus pioneiros do diálogo no Brasil, ao lado dos rabinos Pinkuss e Sobel, de Hella Moritz, Hans Borger, Edda Bergmann, entre outros. Represento, com o apoio da CIP, a Confederação Israelita do Brasil no diálogo inter-religioso e, como seu emissário, encontrei-me com o papa Francisco em três ocasiões: em 2013, na Basílica de Aparecida, por ocasião de sua visita ao Brasil para a Jornada Mundial da Juventude; em 2014, no Vaticano, a convite do Congresso Judaico Mundial; e agora, também no Vaticano, durante o congresso anual do International Council of Christians and Jews.

Compreendo o meu judaísmo de maneira muito mais profunda quando entro em contato com aquele que é diferente de mim. Sinto que minha identidade judaica se aprofunda cada vez que conheço melhor a religiosidade do outro e consigo respeitá-la. A minha elevação espiritual e moral passa, necessariamente, pelo encontro e pelo diálogo, com todos os seus fascinantes desafios.

Em uma famosa lenda do Talmude (Taanit, 23a), na história de Choni HaMeaguel, uma criança questiona um idoso porque está plantando uma árvore que levará muitos anos para dar frutos. O ancião responde que não pretende colher os frutos daquela árvore, mas deixar para as futuras gerações, assim como um dia ele recebeu os frutos de seus ascendentes.

O final da lenda, no entanto, é menos conhecido. A expressão “chavrutá ou mitutá”, “amizade ou morte”, é citada para dizer que o indivíduo precisa da sociedade e do respeito dos outros porque, sem isso, a vida não valeria a pena. Jacob Neusner, pensador judeu contemporâneo, traduziu a expressão de maneira provocativa dizendo “dê-me o estudo em pares – ou a morte”.

No contexto do diálogo, sabemos que a alternativa à chavrutá foi, em muitos momentos, literalmente, a morte. Quando o encontro respeitoso não é possível, o resultado é o empobrecimento da sociedade, o isolamento dos indivíduos e o desaparecimento, senão do corpo, certamente do espírito.

Federação Israelita do Paraná

http://www.feipr.org.br/noticias.aspx

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