Uma interpretação errônea dos fatos

Prezada Redação,

Hoje a Folha publicou mais um artigo, assinado pelo excelente colunista Demétrio Magnoli, na qual levanta novamente a polêmica sobre a suposta declaração do Primeiro Ministro de Israel, Sr. Benyamin Netanyahu, na qual teria afirmado que o então Mufti de Jerusalém, Haj Amin al-Husseini, foi quem concebeu o Holocausto e vendeu esta ideia a Hitler (vide Folha, dia 24/10/2015, página A12, artigo “De Faurisson a Netanyahu.”)

Como pretendo comprovar, afirmo que aquilo que o Sr. Netanyahu disse foi tirado do seu contexto histórico e deturpado para dar a ideia de que o primeiro mandatário do Estado de Israel concebeu uma falsidade histórica e politicamente interesseira.

Os fatos que relatarei a seguir demonstram que nada está mais longe da verdade.

O que o Sr. Netanyahu disse?

O fala do primeiro ministro ocorreu durante o 37º Congresso Sionista Mundial, no dia 20 de outubro passado.

Ele estava discorrendo sobre os recentes episódios de terrorismo palestino perpetrado contra cidadãos e soldados israelenses, através de uma nova tática: o esfaqueamento. Dizia o Sr. Ministro que a novidade desta nova onda de violência não estava no fato dos palestinos terem inventado uma nova forma de atemorizar e matar a população judaica e sim no falso motivo que suas lideranças utilizam para arregimentar assassinos dispostos a morrer por esta “causa,” inclusive crianças.

Um dos motivos desse incitamento – e a mentira que a acompanhava – era de que o governo de Israel quer destruir o 3º lugar mais sagrado do Islamismo, ou seja a Mesquita de al-Aqsa.

Para consubstanciar e provar esta falsidade, o Sr. Netanyahu citou as várias tentativas dos árabes palestinos de expulsar os judeus da Terra Santa, em épocas pregressas e foi quando veio a baila a pessoa do Mufti.

Abaixo encontra-se todo o trecho polemizado. Aqui cito o resumo que importa para colocar o discurso no seu devido contexto:

“…Meu avô veio a esta terra (o Mandato da Palestina de então) em 1920 e ele desembarcou em Jaffa; logo depois que ele visitou o escritório de imigração em Jaffa. E alguns meses mais tarde, este escritório foi incendiado por saqueadores. Esses atacantes, atacantes árabes, assassinaram vários judeus…

É neste ponto que ele estende sua locução, citando os diversos momentos históricos, ANTES da fundação do Estado de Israel, quando o então Mufti de Jerusalém promoveu vários mini-pogroms contra a pequena população judaica que morava nas terras do Mandato:

“…E este ataque e outros ataques contra a comunidade judaica em 1920, 1921, 1929, foram instigados por uma convocação do Mufti de Jerusalém, Haj Amin al-Husseini, que mais tarde, durante os processos de Nurembergue, foi procurado por crimes de guerra porque ele teve um papel central em fomentar a Solução Final.

“Ele voou para Berlim. Naquela época Hitler não queria (ainda) exterminar os judeus, ele queria expulsar os judeus (da Alemanha). E Haj Amin al-Husseini foi de encontro a Hitler e disse: ‘Se você expulsá-los, todos eles virão aqui…’”

Entendendo e contextualizando o episódio acima

Em primeiro lugar, os fatos:

1. É um fato histórico que o Mufti promoveu e liderou várias mini-intifadas contra a comunidade judaica vivendo no Mandato da Palestina;

2. É um fato histórico que durante a chamada Revolta Buraq, entre 23 e 29 de agosto de 1929, 133 judeus e 110 árabes foram mortos e centenas de judeus foram feridos;

3. É um fato histórico que antes do início desta revolta o Mufti de Jerusalém distribuiu panfletos aos árabes na Palestina e em todo o mundo árabe, afirmando que os judeus estavam planejando assumir o controle da Mesquita de al-Aqsa (uma inverdade total);

4. É um fato histórico que a chamada Comissão Shaw, a qual investigou o incidente para reportá-lo a Londres, declarou que na sua opinião “…este distúrbio não teria ocorrido ou não teria sido pouco mais do que uma escaramuça local, não fosse o sentimento de animosidade árabe e sua hostilidade contra os judeus…”

Por fim, é uma verdade histórica que o Mufti fez várias visitas a Berlim, especialmente aquela mencionada pelo Sr. Netanyahu (em 28 de novembro de 1941), e que a frase mencionada de como o Mufti queria que Hitler agisse com relação aos judeus foi realmente pronunciada. Ver a transcrição desta reunião em www.timesofisrael.com

A interpretação da afirmativa de que “naquela época Hitler não queria (ainda) exterminar os judeus”

Sim, aqui o Sr. Netanyahu cometeu um lapso, não quanto ao fato de que no início da perseguição aos judeus Hitler não queria ainda exterminá-los e sim quanto à data desse encontro.

Mais uma vez relato os fatos históricos:

1. Data de 1923 e 1924, quando Hitler estava preso na Prisão de Langsberg por tentativa de um golpe contra a República de Weimar, e quando ele escreveu sua “obra prima” Mein Kampf, é que o futuro déspota do 3º Reich já planejava matar os judeus caso viesse a ocupar uma posição de poder que lhe permitisse realizar tal intento;

2. Quando chegou ao poder em Janeiro de 1933, Hitler imediatamente colocou em marcha seu plano monstruoso. No entanto, ele foi concebido tendo fases; a primeira delas era de tentar expulsar os judeus da Alemanha e, mais tarde, da Europa.

3. Entre os anos 1933 e 1939, o regime nazista tinha introduzido uma mudança radical e assustadora para a comunidade judaica alemã – nos planos social, econômico e comercial.

Durante estes oito anos, a legislação nazista anti-judaica tinha marginalizado os cidadãos judeus da Alemanha, expulsando-os os das profissões e da vida comercial.

4. Em janeiro de 1933, viviam na Alemanha por volta de 520.000 judeus. Por iniciativa própria e também por pressão do novo regime mais da metade desses indivíduos, cerca de 304.000 judeus, emigraram durante os primeiros seis anos da ditadura nazista; cerca de 210.000 judeus ficaram.

5. No verão de 1940 a Alemanha Nazista estava ganhando a 2ª Guerra Mundial e tudo parecia indicar que o Reich era imbatível, podendo sair vitorioso. Foi quando um alto burocrata do Reich concebeu o chamado “Plano Madagascar.”

Foi Franz Rademacher, chefe da chamada “mesa judaica” do Ministério do Exterior alemão, o burocrata que concebeu o Plano Madagáscar. No seu memorando ao alto comando alemão ele escreveu: “A vitória se aproximando dá a possibilidade para a Alemanha, e na minha opinião, também o dever, de resolver a questão judaica na Europa. A solução desejável é: ‘todos os judeus fora da Europa…’” Ele recomendou banir milhões de judeus europeus para a ilha africana de Madagáscar. O esquema recomendava despojar todos os judeus de sua cidadania e que as suas fortunas pessoais e propriedades fossem confiscadas “…para ajudar a financiar um novo ‘super-gueto’ no Oceano Índico.” Uma vez ali deportados, eles iriam definhar sob o jugo de uma força policial da SS. Portanto, uma vez em Madagáscar, os judeus não seriam apenas exilados – eles também se tornariam reféns do Reich.

Em Maio e Junho de 1940, quando as forças alemãs começaram a Blitzkrieg contra a Europa Ocidental, o Plano Madagáscar parecia uma solução perfeita. A vitória sobre a França parecia iminente, e com ele viria o domínio do seu vasto império colonial, que incluía Madagáscar. A ideia ascendeu rapidamente através dos escalões superiores da estrutura de poder nazista.

Adolf Eichmann e ministro das Relações Exteriores, Joachim von Ribbentrop, a endossaram;

Hitler a mencionou durante uma reunião com o líder italiano Benito Mussolini. Na Polónia, a construção de guetos foi temporariamente interrompida na expectativa de que eles não seriam mais necessários.

Em setembro de 1940, o futuro deste plano começou a parecer incerto. O avanço das tropas alemãs estagnou. O principal obstáculo era a Grã-Bretanha, que obstruiu a aviação nazista durante a Batalha da Grã-Bretanha. Os nazistas esperavam de se apropriarem da Marinha Real, com os navios da qual iriam transportar os judeus europeus para Madagáscar, mas com a Grã-Bretanha ainda de pé, a logística de repente tornou-se impraticável. A Alemanha simplesmente não tinha os navios para levar avante as deportações. No final de-1940, o plano foi engavetado e esquecido.

Interpretação do que o Sr. Netanyahu quis dizer Em resumo, entre 1933 e final de 1940 o genocídio dos judeus europeus ainda não tinha ocorrido na intensidade planejada por Hitler. Nos países ocupados, especialmente a Polônia, os nazistas contraíram guetos e campos de concentração, mas não a estrutura de aniquilamento dos campos de extermínio (Auschwitz, Treblinka, Sobibor, Belzec, Majdanek e Chelmno), algo que só viria a acontecer a partir de Janeiro de 1942, resultado dos acertos na Conferência de Wannsee.

Foram todos estes fatos históricos que o Sr. Netanyahu juntou para afirmar que “…no início da perseguição aos judeus Hitler não queria ainda exterminá-los.” E ele disse apenas que o Mufti “teve um papel central em fomentar a Solução Final,” algo que também é um fato.

Em síntese, o Sr. Netanyahu foi infeliz na formulação que deu a todos estes episódios históricos, mas certamente não tinha qualquer intenção de isentar o Führer e seus milhares de asseclas nazistas do crime hediondo que cometeram contra a população judaica vivendo na Europa entre 1933 e 1945.

Atenciosamente

Tomas Venetianer

 

Referências bibliográficas na Internet:
Revolta árabe de 1929:  en.wikipedia.org
Minutas do encontro de Hitler com o Mufti: www.timesofisrael.com
Texto completo do discurso de B. Netanyahu: www.pmo.gov.il
As Revoltas Árabes dos anos 1920: www.jewishvirtuallibrary.org
Plano Madagascar: www.history.com

 

Extrato do discurso do Sr. Netanyahu no 37º Congresso Sionista

“…The second (lie) is not only that we seek to change the prayer arrangements on the Temple Mount and the non-prayer arrangements on the Temple Mount, which we don’t, is that we seek to destroy the al-Aqsa Mosque. Now this is particularly farcical. It would be farcical if it weren’t tragic. My grandfather came to this land in 1920 and he landed in Jaffa, and very shortly after he landed he went to the immigration office in Jaffa. And a few months later it was burned down by marauders. These attackers, Arab attackers, murdered several Jews, including our celebrated writer Brenner.

And this attack and other attacks on the Jewish community in 1920, 1921, 1929, were instigated by a call of the Mufti of Jerusalem Haj Amin al-Husseini, who was later sought for war crimes in the Nuremberg trials because he had a central role in fomenting the final solution. He flew to Berlin. Hitler didn’t want to exterminate the Jews at the time, he wanted to expel the Jews. And Haj Amin al-Husseini went to Hitler and said, “If you expel them, they’ll all come here.” “So what should I do with them?” he asked. He said, “Burn them.” And he was sought in, during the Nuremberg trials for prosecution. He escaped it and later died of cancer, after the war, died of cancer in Cairo. But this is what Haj Amin al-Husseini said. He said, “:The Jews seek to destroy the Temple Mount.” My grandfather in 1920 seeks to destroy…? Sorry, the al-Aqsa Mosque.

So this lie is about a hundred years old. It fomented many, many attacks. The Temple Mount stands. The al-Aqsa Mosque stands. But the lie stands too, persists.

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