Xeque e rabino debatem em São Paulo Paz e Jihad

O Teatro Eva Herz, da Livraria Cultura, em São Paulo, recebeu em 26 de agosto, muçulmanos e judeus para um debate entre Michel Schlesinger, rabino da Congregação Israelita Paulista (CIP) e representante da Conib para o diálogo inter-religioso, e o xeque Houssam Ahmad El Boustani, que ensina no Brasil islamismo e língua árabe, sob os auspícios do Movimento Futuro, do Líbano. O evento, promovido pela CIP e Conib, foi mediado pelo sociólogo Demetrio Magnoli.

O tema central, “Ensinamentos de islamismo e judaísmo para a paz”, evoluiu para a discussão de questões políticas e históricas, com grande participação do público e visível entusiasmo do xeque, por poder falar também para os judeus.

Boustani iniciou lembrando a “qualidade e o caráter” de todos os profetas, com Maomé sendo o último mensageiro na corrente. Ele notou que no Corão a paz é a regra; a guerra, exceção. “A paz aparece 42 vezes; a guerra, apenas duas. O mais honrado perante Deus é o mais piedoso”.

Schlesinger observou que a palavra mais conhecida da língua hebraica é “Shalom” [Paz], dita quando se chega e quando se sai. E lembrou que no Tratado de Shabat, no Talmud, Deus é chamado de paz.

Para ele, há uma evolução, no Tanach [Velho Testamento], no sentido da paz. “A relação entre irmãos, desde Caim e Abel, é complicada em todo o Tanach, mas o Deus ‘militar’ do Gênesis vai se transformando no Deus do diálogo. Para os profetas, a paz é o principal objetivo de Deus. A conclusão: a paz é construção, conquista”.

Magnoli perguntou a ambos se há algum obstáculo legítimo para a paz no Oriente Médio situado no campo da religião.

Schlesinger respondeu que os fanáticos fazem “uma leitura possível” dos textos sagrados, mas não há barreiras religiosas para a paz. Para Boustani, o Corão é dogmático apenas para os “interesseiros”: “a paz é para pessoas sinceras, sem sinceridade, não há paz”. Ele ressaltou: o problema é o uso “partidário” da religião.

Em pergunta específica a Schlesinger, Magnoli citou o escritor israelense David Grossman, para quem a ocupação dos territórios é um veneno para a sociedade israelense. Michel disse que entende a colocação, mas lembrou que Israel desocupou Gaza em 2005, e teve grande decepção com os resultados.

Para Boustani, a pergunta simétrica: “O antissemitismo no mundo islâmico é um veneno?”. Magnoli lembrou da negação do Holocausto, por Ahmadinejad, a e venda livre do panfleto antissemita “Protocolos dos Sábios de Sião”. O xeque disse que há duas correntes no mundo árabe: uma reconhece o Holocausto; outra não reconhece o número de mortos. “Mas basta ser neutro; Ahmadinejad fazia provocação”.

Magnoli referiu-se ao livro “Secret Landscape”, de Meron Benvenisti, que aborda a mudança de nomes de localidades árabes em Israel, após a Guerra de 1948, denotando o uso da linguagem como “exercício de poder”. Schlesinger respondeu que as narrativas dos dois lados têm verdades e “não é relevante saber quem chegou lá primeiro, mas sim o que fazer hoje”.

Para Boustani, nova pergunta: “O Islã é hoje associado à Jihad, ao atraso. O que o Islã moderno tem a dizer sobre liberdades políticas, individuais, das mulheres, etc?”. O xeque respondeu com outras perguntas: “Quem está por trás disso? Quem quer a guerra? Por que a comunidade internacional não reagiu ao crescimento do ISIS?” Ele acrescentou que Al-Qaeda e Talibã são partidos que usam o nome do Islã e levam a um mau entendimento da palavra Jihad.

O público perguntou sobre a “falta de direitos das mulheres, em ambas as religiões”. O xeque disse que há governos, mas não há um Estado islâmico. “Os governos religiosos não entendem o respeito ao outro. Eu sou favorável a um Estado laico. O Corão tem capítulos específicos dedicados às mulheres, mas os direitos delas são ignorados por muçulmanos ignorantes”. Ele se referiu à Arábia Saudita, onde as mulheres são impedidas de dirigir: “Nos tempos de Maomé, as mulheres andavam a cavalo! A proibição não tem qualquer base, o governo saudita está errado!”.

Schlesinger observou que a maior parte das linhas do judaísmo é igualitária, incluindo correntes dentro da ortodoxia.

Uma questão política vinda do público causou a maior oposição entre xeque e rabino: Schlesinger é a favor da solução de dois Estados para a paz; Boustani prefere um Estado binacional.

Perguntado sobre a posição de partidos religiosos em Israel que defendem a ocupação de territórios pela “antiguidade judaica” na região – um cemitério judaico de 3.000 anos foi citado -, Schlesinger foi taxativo: “Para os fanáticos, a expansão é mais importante que a vida humana.  Não podemos nos preocupar com os cemitérios e sim com aqueles que estão vivos”.

O público pediu a Boustani que abordasse o caso da Turquia, país muçulmano de Estado laico. O xeque comparou-a com a Arábia Saudita. Na primeira, há modernidade; na segunda, tradições e costumes. É o primeiro modelo que o agrada – ele citou também Malásia e Indonésia como exemplos.

Uma pergunta simples levou à resposta mais longa da noite: “O que significa Jihad?”…

“Há um grande engano! Jihad significa ‘esforço’. Não é luta, não é guerra. A palavra é citada quatro vezes no Corão, com dois significados: debate e caminho de Deus”.

Com relação ao primeiro: “O esforço é mental, de estudo, para combater adversários no campo das ideias, mostrando a riqueza na divergência”.

“E o caminho de Deus? Será a luta armada? Há uma Jihad menor, que é o esforço no campo de batalha, e uma Jihad maior, que é a luta espiritual contra os inimigos invisíveis (ganância, inveja, ódio, etc) e pela conciliação. Rabino, fazemos Jihad agora!”.

Magnoli fez a última pergunta: “Nas redes sociais, notamos que os dois lados querem a paz e ato contínuo, criticam o outro. Não poderiam também criticar a si mesmos?”.

Schlesinger afirmou que somos muito eloquentes com relação ao outro; e pouco, com relação a nós mesmos. “As mídias sociais demonizam o outro. Eu mesmo recebi mensagens pouco simpáticas em minha página pessoal, por promover este debate”.

Magnoli resumiu o espírito da noite: “Na guerra, os covardes ficam nas trincheiras. Os corajosos saem e podem tanto levar tiros do inimigo como vaias dos seus. Rabino e xeque são pessoas de coragem”.

Houssam comemorou: “Parabéns, Michel. Nossos filhos nos estão vendo aqui!”.

Xeque e rabino debatem em São Paulo Paz e Jihad
Michel Schlesinger, Demetrio Magnoli e Hassam Boustani.

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Público

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Rabino e xeque.

Fotos: Tahia Macluf

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