Parashá Devarim – Mensagem do Rabino Michel Schlesinger

Parashat Hashavua por Ernesto Strauss

 

O poder das palavras
Mensagem da semana
Fonte: Rabino Michel Schlesinger Congregação Israelita Paulista (CIP)

Quando pensamos nas oferendas que aconteciam no Templo de Jerusalém, o estranhamento é inevitável. É difícil entender como pessoas como nós se sentiam à vontade com um ritual que consistia no abate de animais para se aproximar de D´us.

A explicação antropológica indica que esta era a forma de culto conhecida na época e os judeus reproduziram aquilo que acontecia com os outros povos. Aliás, alguns acreditam que a oferta de animais é uma evolução dos sacrifícios humanos que existiam em algumas tradições religiosas antigas.

Tentarei propor algo diferente.

Quero sustentar que o sacrifício de animais foi uma involução da espiritualidade judaica. Acredito que a mensagem dos primeiros capítulos da Torá foi mal compreendida e retomada somente em Devarim, no final do livro.

Quando D´us criou o mundo, O fez por meio das palavras. Que haja luz e houve luz. A mensagem de um mundo criado por um discurso é a de que as palavras são suficientes para transformar qualquer realidade que se pretenda. A ideia de que a ferramenta principal do criador do mundo não foi um objeto físico, mas sua oratória, nos deveria ensinar que as palavras bastam para a geração de tudo.

Desde muito cedo, ainda na época da Torá, os homens pareceram desconfiar de sua capacidade de resolver todas as questões através do discurso e desenvolveu um ritual dos sacrifícios. Assim, as oferendas seriam uma denúncia da desconfiança do homem na sua possibilidade de falar e resolver suas questões por meio do discurso.

No final da Torá, em Devarim, que significa palavras, a mensagem inicial parece ser retomada. O último livro da Torá que começa a ser lido nesta semana, é o início de um grande discurso de Moisés que dura todo o último livro da Torá.

Em seu recente livro, os judeus e as palavras, o escritor israelense Amós Óz descreve um ensaio sobre a relação íntima que nosso povo desenvolveu com as letras.

Estamos nos aproximando de Tish´á Be´Av. O 9 de Av lembra, de maneira nostálgica, os sacrifícios que eram realizados nos dois Templos de Jerusalém. Quando lamentamos a destruição, choramos também pela cessação dos rituais de oferenda e rezamos pelo seu retorno. O Mashiach vai nascer num Tish´á Be´Av, acredita nossa tradição.

No entanto, esta mensagem entra em choque com a noção bíblica, ou pelo menos do início e final da Torá, de que não precisamos de rituais de sangue para vivermos mais próximos de D´us , por consequência, mais próximos uns dos outros.

A única maneira de conciliar essas duas visões é permitindo que o Tish´á Be´Av seja um dia de lembrança, mas não um dia de nostalgia. A recordação do que foi deveria, ao meu ver, ser dissociada de um sentimento de apego.

Que tenhamos a maturidade necessária para retomar a visão, proposta pela Torá em seu início e seu final, de uma sociedade em que todas as suas questões sejam resolvidas pela capacidade humana de dialogar e que o ritual espelhe essa decisão.

Shabat Shalom

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