João Pereira Coutinho analisa “Ida”, judeofobia muçulmana e neonazismo

Assisti recentemente ao filme “Ida”, dirigido por Pawel Pawlikowski e vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro. Gostei. Esteticamente deslumbrante, a obra apresenta-nos uma noviça que, antes de tomar votos no convento, conhece a história do seu passado. E descobre que, afinal, é judia. Mais ainda: a família morrera na Segunda Guerra Mundial e imediatamente depois de 1945.

Essa última afirmação é a mais polêmica de todas: depois de 1945? Precisamente. Na Polônia (mas não apenas na Polônia), os crimes antissemitas continuaram a ser praticados pelos nativos. Sobretudo quando os judeus sobreviventes tinham a ambição legítima de retornar às suas casas ocupadas.

“Ida” transporta essa desconfortável verdade: o antissemitismo não terminou com a libertação de Auschwitz, tal como afirma Jeffrey Goldberg em artigo obrigatório para a revista “The Atlantic”. A Polônia do pós-guerra é um exemplo. Mas a Europa atual é um exemplo ainda maior.

…na França, a comunidade judaica representa 1% da população total (qualquer coisa como 475 mil pessoas). Em 2014, esse 1% foi vítima de mais de metade dos ataques racistas em todo país.

Será de espantar que 7.000 judeus franceses tenham decidido partir no mesmo ano para Israel – e que, em 2015, a cifra possa até dobrar?

Não há espanto. Jeffrey Goldberg defende que o “novo” antissemitismo, ao contrário do velho, é hoje uma combinação aparentemente bizarra-uma mistura de “judeofobia muçulmana” com “neonazismo” tradicional.

Não contesto essa mistura. Mas contesto a “novidade”: um conhecimento da história do Oriente Médio, e em particular do Mandato Britânico para a Palestina entre as duas Guerras Mundiais, já apontava nesse sentido.

Amin al-Husseini, o famoso “mufti” de Jerusalém que os ingleses acreditavam ser o agente da paz na conflitualidade entre árabes e judeus, era pessoa íntima do Terceiro Reich.

…E se o leitor pensa que falo de um Irã com capacidade nuclear, garanto que não preciso ir tão longe. Aqui ao lado, a Universidade de Southampton (Reino Unido) prepara-se para organizar em abril uma “conferência” de três dias para questionar a “legitimidade” da existência de Israel.

“E se houvesse Israel não teria existido o Holocausto”, diz o artigo, concluindo: “É o eterno retorno: primeiro, questiona-se a existência; depois, alguém irá tratar dela por outros métodos”.

José João Pereira Coutinho

jornalista, escritor, historiador, comentarista e cientista político português.

 

 

 

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