Iniciativa garante aulas online para alunos de Paraisópolis

A pandemia do coronavírus mudou a vida de milhões de estudantes em todo o mundo.

As escolas estão fechadas e o sistema de ensino teve que se readequar.

A alternativa encontrada pela Escola Alef Peretz – uma das mais prestigiadas instituições de ensino da comunidade judaica paulistana, que fica dentro do tradicional Clube A Hebraica (SP) – para manter os alunos em atividade desde o início do isolamento social, foi programar aulas online.

Mas como dar continuidade ao ano letivo para os jovens da Alef Peretz, localizada na comunidade de Paraisópolis?

A unidade é uma iniciativa social implantada pela instituição e beneficia mais de 100 estudantes do ensino médio, entre 15 e 17 anos. Esses alunos recebem estrutura, ensino de qualidade e o mesmo corpo docente da unidade educacional localizada no Clube A Hebraica.

Segundo o diretor da escola, Marcelo Davidovic, o desafio foi equipar os alunos com tecnologia para acompanharem as aulas, que acontecem diariamente das 8h às 12h. “Para os estudantes da unidade A Hebraica, não houve problemas.

A tecnologia faz parte da realidade deles. Nossa preocupação estava em respaldar os jovens de Paraisópolis para terem a mesma estrutura em casa. E, felizmente, fomos beneficiados com duas doações muito importantes de empresas parceiras. A primeira nos beneficiou com 83 tablets, equipados com teclados e fones de ouvido.

A outra, uma doação de aproximadamente 20 notebooks. No entanto, tínhamos mais desafios pela frente, entre eles estava a internet”, conta Davidovic.

Esbarrar em uma conexão de internet ruim para dar continuidade aos estudos tem sido a realidade de muitos estudantes brasileiros no isolamento social. “A Alef Peretz tentou, inicialmente, resolver a questão contratando um plano de banda larga para cada um dos alunos. Porém, eles só conseguiam se comunicar por áudio, não realizavam a conexão por vídeo. E, o vídeo, é essencial nesse caso. Decidimos contratar o serviço internet rápida de uma operadora local. É muito importante que nesse sistema de aula virtual os alunos possam ver os professores, os professores os alunos e haja interação entre todos”, explica o diretor da escola.

Outro ponto importante para o sucesso do sistema online de ensino é o ambiente adequado.

As famílias mais carentes, muitas vezes, dividem pequenos espaços de moradia, o que não permite ao aluno dedicação à aprendizagem. “Para os jovens que não tinham realmente como estudar em casa, abrimos a escola. Abrigamo-os em ambientes seguros e isolados. Outra questão importante: onde há fome não há aprendizado. Para resolver isso, iniciamos outra ação. Arrecadamos aproximadamente R$ 45 mil para a compra de cestas básicas para as famílias desses alunos, além de doações de roupas e produtos de limpeza”, conta Davidovic.

A coordenadora da Alef Peretz Paraisópolis, Nancy Nery, relata que depois de superados os desafios para a implantação do ensino a distância, os professores iniciaram as aulas com a participação efetiva de todos os alunos. “Com o tempo, os estudantes se habituaram ao novo sistema. Criaram uma rotina. Eles assistem ao conteúdo, podem tirar dúvidas em particular com os professores pelo chat, realizam provas e simulados, já que muitos estão se preparando para o ENEM e desejam concorrer a vagas em instituições de ensino superior. Vale ressaltar que, além do conteúdo programático, é essencial que esses jovens se vejam enquanto grupo. Estão isolados, mas têm a oportunidade de compartilhar as aulas juntos. Esse também é nosso objetivo: criar perspectivas por meio do conhecimento para que enfrentem positivamente esse momento.”

Para contribuir ainda mais com a qualidade de vida dos alunos em isolamento social, a escola ainda oferece atendimento psicológico àqueles que precisam de ajuda para entender melhor a pandemia. “Muitos deles têm a escola como uma possibilidade de interação social. O distanciamento acaba sendo muito difícil.

Queremos que esses jovens se sintam fortalecidos”, explica Nancy.

“Entendemos que a chave de mudança social, cultural e econômica é a educação. Em 2019, mais de 70% dos nossos alunos de Paraisópolis conquistaram vagas em instituições públicas como USP, UNESP, UNICAMP e UNIFESP. Eles tiveram resultados excepcionais e agarram essa oportunidade com todas as forças”, finaliza, com alegria, Davidovic.

Depoimento dos alunos da Alef Peretz Paraisópolis

Isaac, 18 anos, 3º ano do ensino médio.

“As aulas online são legais. O difícil é o isolamento social. Gosto de estar em contato com as pessoas, falar, abraçar. O que a escola vem fazendo pelos alunos de Paraisópolis é algo imensurável ao qual sou muito grato. A escola disponibilizou chip, internet, notebooks. Além disso, fomos contemplados com cestas básicas, que ajudou muito a mim e à minha família. Fiquei um pouco preocupado com a possibilidade do Ministério da Educação não adiar o ENEM. Mas, me sinto seguro. Saí da escola, mas ela não saiu de mim. Continuei tendo aulas online. Quando a internet ficava ruim em casa, ia para a escola de máscara, usava álcool em gel. Lá encontrei uma política de higienização bem rígida. Não existe nada no mundo com o tamanho da gratidão que tenho pelo escola, que é uma família para mim. Os professores são amigos, se preocupam com a gente. Falamos das nossas sensações diante da pandemia. A escola é muito importante para que possamos fazer nossos vestibulares. Estamos fazendo simulados online para o ENEM. Finalizo com uma frase do Paulo Freire: Quando a educação não é libertadora o oprimido sonha em se tornar o opressor. Então, o que passamos hoje, é um exemplo de que as pessoas mais pobres precisam de políticas públicas que contemplem uma educação de qualidade e inclusiva. Agradeço muito e espero que escolas como a minha se tornem referência.”

Luiz Gustavo – 15 anos, 1º ano do ensino médio.

“Recebemos equipamentos e estrutura da escola para estudarmos a distância. No começo, achamos que seria fácil pela internet e por não termos que nos descolocar até a escola. Mas, nos enganamos. Sem perceber, deixamos acumular algumas lições e elas foram aumentando. Diante disso, a escola reorganizou os horários de aula e disponibilizou 10 minutos entre uma aula e outra para que a lição não fique acumulada. O que torna as aulas difíceis é o sentimento de nunca ter passado por algo semelhante. O novo, muitas vezes, nos deixa confusos e sem saber como agir.”

Isabela – 15 anos, 1º ano do ensino médio.

“É um pouco complicado para mim as aulas a distância pela falta de contato com os amigos e professores. Acho mais difícil aprender sem o professor ao meu lado. Mas, tirando essa parte, que é necessária por conta da COVID-19, consigo acessar as aulas sem nenhuma dificuldade. Os professores estão fazendo o melhor. Agradeço por ter aulas. Estou começando a me acostumar com esse sistema.”

 

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