Aleksander Laks: Não esquecer jamais!

Aleksander Henryk Laks

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Presidente da Sherit Hapleitá RJ-Associação dos Sobreviventes do Holocausto.

Falando no dia 27 de Janeiro de 2015, por ocasião do Dia Internacional das Vítimas do Holocausto, no Itamaraty, Rio de Janeiro.

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O menino que com 12 anos na cidade de Lodz viu seu pai morrer 
de fome na Marcha da Morte, enfrentou os nazistas nos campos de morte, o desolamento como pessoa deslocada após a II Guerra Mundial, a luta pela sobrevivência e o trauma do pós guerra, sucumbiu aos 88 anos de idade,no dia 21 de julho, no hospital após sofrer algumas semanas com pneumonia.

Nasceu em Lodz, na Polônia em 1927 e tinha 12 anos quando seu país caiu sob a bota da Wehrmacht. Quem pode imaginar o que uma criança pode suportar e enfrentar ao ver morte, destruição e a perda da mãe e depois do pai.

Passou os horrores da crueldade nazista e da crueldade humana. Mas, também nos conta da generosidade e lealdades que deu algum alento à sua alma.

Lembro muito bem de uma passagem do livro”O sobrevivente” em que estando à beira da morte, no estado que chamavam de “muçulmano” em completa apatia, a mão generosa de alguém lhe deu alguns goles de leite.

Quando contava suas passagens por Auschwitz, os ouvintes podiam sentir a dor no ar, o cheiro do suor, lágrimas e urina, e o ambiente ficava tenso e o público como que participava daqueles momentos.

E após a conferência, o ar se enchia de amor, carinho e muita admiração por aquele “homem”que representava o melhor do ser humano.


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Interessante, o episódio em que ele conta sobre vingança (pg158). A guerra havia terminado, e o sentimento de ódio e revolta que se instalou em mim era grande. Eu não praticava nenhum ato de vingança; os preceitos éticos dos judeus estão marcados na alma, e a extrema limitação de “Não matarás” impediu que eu fizesse justiça com as próprias mãos. Eu fazia uma pequena vingança que me dava um certo alívio, mas hoje vejo como eu era ingênuo e puro. Nós recebíamos cigarros do exército americano, da UNRRA e da Cruz vermelha. Eu não era fumante, mas pegava, dava duas tragadas e jogava o resto no chão. Os alemães corriam para pegar o cigarro; exatamente como nós na floresta, corremos para pegar aquele pedaço de pão, e como meu pai que se debruçou para pegar uma guimba. Eu então pisava no cigarro, quase inteiro ainda, e o esmagava. Essa era a minha vingança.”


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Quando o entrevistador perguntava ao Laks (Heniek):Como o Sr. sobreviveu? Por que acha que sobreviveu? Ele respondia: Acho que sobrevivi para contar, Holocausto nunca mais.
E por meu pai. ”Meu pai tinha quarenta e quatro anos quando se juntou aos seis milhões de judeus que pereceram no Holocausto. Hoje, rendo-lhe homenagem, fazendo o que ele me pediu. Eu conto, conto nossa história. E cada vez que conto, penso nele.
O que mais poderia fazer por meu pai?”(pg134).


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A história da morte do pai de Laks é impressionante. ”Meu pai contraiu a disenteria,…esvaia-se aos poucos…expelindo os intestinos…Meu pai tinha entrado no estágio final…não havia mais fome dor ou medo…Encontrei meu pai na latrina, estendido sobre aquela sujeira de fezes e de sangue.Aproximei-me e ouvi quando disse meu nome. Os olhos estavam abertos e vitrificados.Vi quando os piolhos começaram a descer de seu corpo. Entendi que estava morto…….levaram meu pai em uma carroça. Já não havia crematório.
Meu pai foi colocado numa pira e queimado Fui olhar.Ele estava com os olhos abertos; era pele e osso. Vi a numeração sobre sua testa, em tinta vermelha.” 

Aleksander Henryk Laks foi a prova da resiliência judaica. Uma amostra viva de como os judeus responderam à maior tragédia do século XX. Durante todos estes anos se dedicou a contar. Não recusava nenhum convite para falar. Quer se tratasse de uma pequena escola no interior do Brasil, quer fosse uma universidade no exterior. 


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Foi um parceiro incansável participando nas Jornadas de Direitos Humanos e Holocausto e no Grupo de Estudos do Holocausto da B´nai B´rith Rio.

A foto mostra o carinho da plateia após ouvir espantada e emocionada o relato do sobrevivente que, sempre no fim de seu discurso mostrava um imenso amor e admiração pelos professores e os alunos. 

O padre Jesus Hortal Sánchez na apresentação do livro ”O sobrevivente” diz:-…Por que sobreviveu Heniek? Não terá sido para preservar a memória e mostrar-nos que apesar de toda a crueldade humana, a vida teima em aparecer?


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Sr. Bira Marques , Secretario da Assistência Social, Laks e HP da B´nai B´rith-2013, Carlos Grand, na Câmara Municipal em homenagem às vítimas do Holocausto.


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Aleksander Laks falando durante a posse da diretoria 2013/2015 da ABCBB-Rio.


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Mesa Diretora da IX Jornada Holocausto e Direitos Humanos-2014


Por ocasião de seu falecimento, a Diretora de Direitos Humanos QI Denise Tredler da Associação Cultural Beneficente B´nai B´rith-Rio emitiu a seguinte nota:-
Faleceu na data de 21 de julho de 2015, 6 de Av de 5775, o Querido Irmão da Associação Beneficente e Cultural B’nai B’rith Rio de Janeiro, Aleksander Henrik Laks, Z’L, presidente da Sherit Hapleitá RJ, a Associação das Vítimas do Holocausto na cidade do Rio de Janeiro. 

Sua vida foi marcada pela Segunda Guerra Mundial, quando foi levado a campo de concentração nazista, onde perdeu sua família no curso das atrocidades praticadas no período da guerra, 1939 a 1945, sabidamente um dos períodos mais perversos e trágicos da humanidade. 

Sobrevivente do Holocausto judaico promovido pelos nazistas, o QI Laks soube transformar a sua dor em Luz, transmitindo a jovens alunos e seus professores a história do Holocausto. E ele o fez incansavelmente, certo da importância histórica desta memória para o povo judeu, a fim de que tal tragédia jamais possa repetir-se.

Sua contribuição a seu povo é inestimável e foi muito além do Brasil e de suas fronteiras.

Sua superação e o amor com que se referia ao país e aos brasileiros, que tão bem o acolheram, é igualmente imensurável. 

No Brasil construiu a sua família, da qual deixa seus filhos Jerson e Sergio, netos Julia e Daniel.

É com profunda tristeza que a B’nai B’rith se despede do Querido Irmão e grande alma, Aleksander Laks, Z’L

Jayme Gudel-Diretor Executivo.

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