O Judeu de Pernambuco que retornou do passado

Israel Blajberg

Foi há muito tempo atrás.  Talvez 400, 500 anos.  Neste mês de julho de 2013, arqueólogos de Pernambuco liderados pelo Prof. Marcos Albuquerque levantaram a patina do tempo que encobriu um corpo enterrado, descoberto durante as escavações para construção de um túnel urbano na Madalena, em Recife.  A este eminente Professor  muito deve a História Judaica, pelos importantes trabalhos que levaram a revelação ao mundo da primeira Sinagoga das Américas, Kahal Tzur Israel, no Recife, além de tantos outros sítios históricos, cemitérios, fortalezas. Equipe dedicada, que com muita técnica e carinho cuidadosamente revela tais preciosidades, empunhando pacientemente suas ferramentas e pincéis. Destes abnegados, esperamos que em futuro não muito distante, venham a descerrar o mistério que oculta o antigo cemitério judaico, perdido até hoje em desconhecida localização.

Ao que tudo indica o esqueleto encontrado terá sido de um judeu, pois como explica o Professor, que coordena o Laboratório de Arqueologia da UFPE, os braços repousam ao lado do corpo, despojado de qualquer joia ou pertence e sem mobiliário funerário, como manda a tradição judaica, pois na cristã os braços são cruzados sobre o tórax ou sobre a bacia.

Quem terá sido este irmão, que viveu naquela que um dia foi Mauritsstadt?  Emoldurada pelo mar e pelos rios, já faz quase 4 séculos que os holandeses partiram, após escassos 24 anos fantásticos, que deixaram sua marca na Historia do Brasil.

A pequena sinagoga Kahal Kadosh Zur Israel, a Santa Congregação Rochedo (Recife) de Israel, com a partida dos judeus ficou perdida através dos séculos, herança de uma época incrível quando judeus conviveram lado a lado com os calvinistas, sem medo da Santa Inquisição e das visitações do Santo Oficio.

Tangidos pela intolerância, a Gente da Nação de que falava Gonsalves de Mello teve que partir.  Muitos dos nossos irmãos se foram, chegando até Manhattan e a Holanda acolhedora, mas este judeu desconhecido ficou. E sua gente sofrida afinal venceu, eis que a Inquisição  desapareceu na poeira dos tempos. E aqui estamos novamente.  Decorridos séculos  continuamos  poucos, mas orgulhosos,  muito orgulhosos de pertencer à Nação Brasileira.

Não sabemos quem foi este judeu, seu nome, nem o que fazia. Ele jamais soube, mas faria uma viagem fantástica de 4 ou 5 séculos pela Eternidade. Seu corpo oculto no subsolo de Recife repousou, enquanto desfilava a historia do Brasil: Marques de Pombal, o fim da Inquisição, Dom Pedro I: “Independência ou Morte!”, a Guerra da Tríplice Aliança, no século XIX judeus do Marrocos, da Alsácia, o fim da mácula escravagista, a República, o grande hebraísta Dom Pedro II parte para o exílio, séc. XX já os poloneses, russos, buscando nesta terra abençoada a nova pátria, o Brasil é atacado pela Alemanha Nazista e manda nossos soldados para a Itália, Presidentes Vargas, JK, Tancredo, Itamar, Lula, Dilma, as manifestações convocadas pela Internet. Até que o judeu desconhecido se nos revelou, pelo milagre da Arqueologia.

O Brasil tanto deve aos seus irmãos que um dia ajudaram a antiga colônia portuguesa a prosperar no comercio e nos engenhos de açúcar. Seus descendentes tão importante papel desempenhariam nos negócios, nas artes, na cultura, nas ciências, afinal retornando ao Brasil novamente contribuindo para fazer deste país uma grande nação, onde nas veias de tantos de seus filhos ainda corre um infinitésimo do sangue de remoto antepassado cristão-novo, do que certamente podem se orgulhar.

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