Islamismo e Primavera Árabe

Para se desenvolverem, os países hoje de renda média, como o Brasil, experimentaram a contradição clássica entre as forças desenvolvimentistas e modernizadoras voltadas para a industrialização e as forças liberais e dependentes.

Por outro lado, é comum a crença de que modernização e secularismo são irmãos gêmeos, ainda que esse não seja o ensinamento da história.

Os movimentos nacionalistas árabes acreditaram nessas duas teses, e tentaram colocá-las em prática. Nos anos 1950, um sunita no Egito, Abdel Nasser, e um xiita no Irã, Mohammed Mossadegh, foram os líderes dessa ideia, mas foram derrotados pelas potências imperiais.

O mesmo aconteceu com o regime secularista do Iraque, derrotado por sua própria incompetência e pelo imperialismo, e está agora acontecendo na Síria.

Após essas derrotas, em 1979, ocorreu a revolução islâmica no Irã. Há muitas maneiras de entendê-la; minha interpretação é que ela refletiu o fracasso das tentativas dos árabes de realizar sua revolução nacional e capitalista de forma secular e da a percepção que poderiam realizá-la com auxílio da religião.

O que pode parecer absurdo para quem tenha aprendido que modernização e religião são antagônicos. Mas que, historicamente, nada tem de absurdo. Afinal, a fundação da Igreja Anglicana por Henrique 8º foi essencialmente a decisão de usar a religião para unir a nação e fortalecer o Estado inglês.

Há dois anos, tivemos a Primavera Árabe e, novamente, o problema da modernização se colocou com vigor. Os liberais acreditaram que se abria novo espaço para a democracia liberal e secularista, mas o que vimos no Egito e na Tunísia foi a vitória de partidos islâmicos “”que, além de muçulmanos, defendem a integração entre religião e Estado.

No Egito, o governo da Irmandade Muçulmana adotou uma Constituição em que a sharia “” a lei do Alcorão “” é reconhecida, e sua política internacional é prudente, mas claramente independente. O que já está lhe valendo a crítica das elites locais e das potências ocidentais.

Na Tunísia, também, a direção geral da mudança é a mesma. Não se estabelece um governo islâmico puro, como aconteceu no Irã, mas o país torna-se mais independente.

Partidos sunitas, que até há pouco estavam mais preocupados com as questões religiosas e com a ideia de um califado pan-arábico, agora se mostram mais preocupados com o desenvolvimento nacional.

Significará isso que os novos governos islâmicos sunitas estão caminhando na direção do desenvolvimentismo?

Como as revoluções industriais foram quase sempre realizadas no quadro do mercantilismo ou da sua forma moderna “”o desenvolvimentismo””, e como o liberalismo associado aos interesses das potências imperiais não levou os países árabes ao desenvolvimento, é razoável supor que países como o Egito e a Tunísia caminhem nessa direção.

Mas o caminho não será fácil. Para que seja bem sucedido, não bastará que o governo tenha apoio do povo; precisará também de um projeto de desenvolvimento, que só se concretizará com a participação de seus empresários industriais e de parte de seus intelectuais.

 Luiz Carlos Bresser-Pereira é professor emérito da Fundação Getúlio Vargas, onde ensina economia, teoria política e teoria social. É presidente do Centro de Economia Política e editor da “Revista de Economia Política” desde 2001. Foi ministro da Fazenda, da Administração e Reforma do Estado, e da Ciência e Tecnologia. Escreve a cada duas semanas, aos domingos, na versão impressa de “Mundo

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