Auschwitz ainda nos adverte

 

Mario Eduardo CohenHá 69 anos, o mundo ficou sabendo do acontecimento mais monstruoso da história humana (assim classificado por Norberto Bobbio). A partir do ingresso das tropas russas em Auschwitz acabou a máquina industrial da morte, em 27 de janeiro de 1945.

 

Sem lápides, foi este o maior cemitério judaico de todos os tempos. Também padeceram patriotas poloneses e russos, ciganos, testemunhas de Jeová, homossexuais e outras minorias pelo extermínio nas mãos da invasora Alemanha nazista.

Só pronunciar este nome já é sinônimo da mais escura noite da história. Vale precisar que se tratava do maior campo da morte. Foi ao mesmo tempo campo de trabalho escravo e de experiências médicas com seres humanos vivos. Houve muito mais, nos cruéis métodos que levaram à matança sistemática de milhões de judeus europeus, entre outras minorias, em um processo conhecido na história como Holocausto ou Shoah (o significado original destas palavras é distinto: “Holocausto” é uma palavra grega e significa “sacrifício total pelo fogo”; atualmente utiliza-se com maior precisão, o vocábulo hebraico “Shoah”: aniquilação, catástrofe).

 

A partir desse ingresso das tropas soviéticas, o mundo começaria a tomar conhecimento da magnitude dos crimes nazistas. Houve mais de um milhão de assassinatos somente em Auschwitz e seus campos adjacentes (somando-se vários campos de extermínio): bebês, crianças, jovens, idosos, homens e mulheres foram assassinados em pouco mais de três anos.

 

Desde que ascenderam ao poder em 1933, os nazistas esperaram sete anos para começar as matanças massivas (1940). Antes e para facilitar seus objetivos foram tergiversando a linguagem: chamavam de  “insetos” as supostas “raças inferiores”, “solução final” ao genocídio, “emigrados” aos assassinados, “duchas” as câmaras de gás, “kapos” aos colaboracionistas, “campos de concentração” aos campos de extermínio, “trapos” aos cadáveres. Hoje, isso serve de alerta para a linguagem usada pelas ditaduras, o que Rainbach chama “a catástrofe da palavra”.

 

O pesquisador italiano Enzo Traverso resume sua visão do Holocausto assim: “ O genocídio judeu é único na história, por ter sido perpetrado com o objetivo de uma remodelação biológica da humanidade; é único em que o extermínio de vítimas não era um meio, era um fim em si mesmo”.

 

Para que não se repitam fatos como o Holocausto (Shoah) ou genocídios contra qualquer minoria, despomos de duas poderosas ferramentas: a educação e a memória.

 

“A exigência de que Auschwitz não se repita [é a primeira de todas que se há de colocar na educação]”, afirmou Theodor Adorno. Devemos entender a importância de ensinar as consequências do Holocausto para que todos tenham consciência e o mundo inteiro também se proponha a chegar à conclusão do “Nunca Mais!”. É o único modo de prevenir que não se repita semelhante ataque à civilização e à convivência humana.

 

Ainda assim, o Prêmio Nobel da Paz Elie Wiesel – sobrevivente de Auschwitz – adverte que o mandato da memória inclui: ”Não esquecer; lembrar; fazer recordar”. Em Buenos Aires, o Museu do Holocausto-Shoá (Montevideo 919) cumpre com estes objetivos.

 

Não se trata de “passado passado”,  e sim de um “passado presente”. A tal ponto que Giorgio Agamben afirma: “Auschwitz nunca deixou de existir”. E Wiesel acrescenta: “Aprendemos algumas lições: que todos são responsáveis e que a indiferença é um pecado que merece castigo. Aprendemos que quando as pessoas sofrem, não podemos ser indiferentes”.

 

Para Alain Finkielkraut, a aberração da ideologia nazista se expressa pelo desapreço pelo outro. “Sobre as ruinas da consciência quiseram [os nazistas] implantar um novo homem. Um homem livre do sentimento de unidade da espécie humana, um homem que, em nome da raça, repudiara a própria ideia da humanidade e que, desta maneira, se eximisse de toda obrigação para com as outras raças, para com os outros homens…” Esta memória ativa nos exige uma atitude alerta, onde impere a responsabilidade solidária para com todos os seres humanos.

 

Afirmava João Paulo II: “Auschwitz não para de nos admoestar, ainda em nossos dias, lembrando que o antissemitismo é um grande pecado contra a humanidade”.

 

Em um 27 de janeiro, o mundo recuperava o rosto humano, malogrado na fábrica do extermínio que significou Auschwitz (como os demais campos: Treblinka, Belzec, Majdanek, Chelmo, Sobibor, etc.).

 

Para o sobrevivente Imre Kertesz, Prêmio Nobel de Literatura, depois  de Auschwitz “resta somente resistir com palavras certas, resta somente a poesia”. Queremos concluir esta matéria justamente recordando um fragmento do “Kaddish de um sapato rasgado”, um bonito poema de Antonio Requeni que evoca um sapato rasgado de uma criança anônima, vítima da Shoah: ”Te contemplo/ longe do tempo e das lágrimas/ em tua inocência, náufrago./ e quisera colocar-me de joelhos/ e pedir-te perdão por estar vivo,/ porque em alguns instantes sairei ao mundo/ do sol e das árvores, e acaso encontre uma criança ruiva e sorridente em meu caminho/com os sapatos novos”.

 

LA NACION

 

O autor é presidente do Centro de Pesquisa e Difusão da Cultura Sefaradi

http://www.lanacion.com.ar/1658792-auschwitz-no-deja-de-amonestarnos

 

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